quinta-feira, 14 de junho de 2007

De noite recordou

(foto Maramar)
A braços com a noite
Mais teimosa do que escura,
Passa-lhe de novo o filme escorrido
do passado que abafou

São películas antigas, esmagadas,
Por entender e desagasalhadas
Numa gaveta aferrolhada
Que nunca mais abriu, desencantada

E só a noite a acompanha
Nesta conversa tão estranha
O filme passa, teimoso recorda
As lembranças que não quer evocar

E porque é que só a noite
Tudo isto a vai lembrando?
Diz-lhe noite, se puderes
O que se faz para resolver
Tanta coisa por entender?

De criança só se lembra
Dos desencontros em que cresceu
E ainda hoje não se esqueceu
De cada choro que escondeu

Diz-lhe noite, já que teimas
Nessa conversa atormentada
Que anjo foi que a guardou
E nesses dias a aconchegou?

Porque tudo o que deu e encontrou
Foi porque amou e se entregou
E porque o que tinha, tudo deu
O que não deu, não reparou

E foi assim que aqui chegou
De corpo e alma se esbanjou
Tudo o que ficou e o que restou
Daquela gaveta que trancou

E se mais não dá, ou se não deu
E se mais não faz, ou se não fez,
Foi porque de noite recordou
Tanta coisa que não conheceu!

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