a todos que transporto comigo.
segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
terça-feira, 25 de dezembro de 2007
Lugares que guardamos
Histórias de infância, lugares que guardamos dentro de nós, aromas e essências que passam por nós no presente e nos transportam para espaços e momentos mágicos num flash back brando e morno, até aos dias inocentes da nossa infância, um passado que transportamos. Quem não os tem?
Bastou o cheiro de uma vela apagada para que o tempo a transportasse com saudade para muitos anos atrás, quando ainda criança, de tranças bem apertadas e vestido de smocks, passava o dia de Natal em casa da sua avó materna.
Celebrado sempre ao jantar de dia 25, era um momento mágico, rico em tradições.
Bastou o cheiro de uma vela apagada para que o tempo a transportasse com saudade para muitos anos atrás, quando ainda criança, de tranças bem apertadas e vestido de smocks, passava o dia de Natal em casa da sua avó materna.
Celebrado sempre ao jantar de dia 25, era um momento mágico, rico em tradições.
Chegavam cedo, ao princípio da tarde. A mãe logo se dirigia para a cozinha, ajudando nas várias tarefas que ainda esperavam pelos últimos aperfeiçoamentos.
Enquanto isso as crianças brincavam lá fora no jardim, se não estivesse a chover. Se por azar isso acontecia, havia no andar de cima um enorme quarto onde ainda havia os livros e brinquedos da infância da sua mãe e das tias.
Lembra-se agora da casa de bonecas, toda feita pelo seu avô que pacientemente, enclausurado horas a fio no seu work-shop nas traseiras da casa, tinha serrado e limado pequeníssimas peças de madeira que se transformavam em cópias minúsculas e perfeitas da mobília daquela casa. Nunca tinha conhecido o seu avô porque morreu cedo, doente e cansado dos ferimentos sofridos na guerra. Só uma velha fotografia sépia emoldurada em cima da cómoda da sala denunciava um homem magro, de cabelo todo branco e o rosto vincado pelos anos. O sorriso esbatido chegava aos olhos, que se percebiam serem muito claros. Fixados a olharem para nós, mantinham um brilho terno e brincalhão, que contrastava com a sua figura.
Lembra-se agora da casa de bonecas, toda feita pelo seu avô que pacientemente, enclausurado horas a fio no seu work-shop nas traseiras da casa, tinha serrado e limado pequeníssimas peças de madeira que se transformavam em cópias minúsculas e perfeitas da mobília daquela casa. Nunca tinha conhecido o seu avô porque morreu cedo, doente e cansado dos ferimentos sofridos na guerra. Só uma velha fotografia sépia emoldurada em cima da cómoda da sala denunciava um homem magro, de cabelo todo branco e o rosto vincado pelos anos. O sorriso esbatido chegava aos olhos, que se percebiam serem muito claros. Fixados a olharem para nós, mantinham um brilho terno e brincalhão, que contrastava com a sua figura.
A sua avó vivia numa casa nos arredores de Lisboa. Era uma casa com quartos e salas muito grandes para os seus olhos de criança, uma cozinha gigantesca que cheirava sempre magnificamente porque a sua avó era uma cozinheira formidável. Fazia uns manjares extraordinários, iguarias que só ela sabia fazer e cujas receitas guardava manuscritas, numa letra grande e bem desenhada, num caderno de capa preta, ao qual nem as filhas tinham acesso!
Era uma casa com um jardim cheio de esconderijos e árvores para subir e descer e onde ela podia correr à vontade na brincadeira com os seus primos direitos, todos rapazes mais novos e por vezes com o seu irmão, até ele ter idade para estar com os adultos. Foram tardes bem passadas, aquelas em que podia soltar-se e brincar, sem ninguém para lhe dizer para não fazer, para não sujar, para não asneirar.
Os “crescidos” ficavam dentro de casa. Eram dois mundos diferentes. O dos adultos e o das crianças. Nunca se misturaram. Uma vez dentro de casa, era preciso manter a postura, nada de gritos ou correrias. A sua avó era daquelas senhoras muito britânicas, very much so, e com pouca paciência para traquinices of small people. A regra indoors era o silêncio e a compostura.
Mais tarde havia drinks antes de jantar, conversas de adultos sem grande interesse para as crianças e depois passava-se à casa de jantar, enfeitada para a ocasião, com uma grande mesa ao centro, onde cabia toda a gente sentada.
Só se falava em inglês. Havia sempre um enorme peru, que começava a ser assado de manhã muito cedo, com um recheio como só a sua avó sabia fazer e que ela nunca mais comeu na vida. Acompanhado com batatas assadas e outras iguarias verdes, que só por ser Natal os pequenos não eram obrigados a comer.
Depois havia mince-pies, lemon curd, taças com fudge e alguns doces trazidos pelas tias.
Depois do jantar, chegava hora do primeiro momento mágico: O Plum Pudding.
Os “crescidos” ficavam dentro de casa. Eram dois mundos diferentes. O dos adultos e o das crianças. Nunca se misturaram. Uma vez dentro de casa, era preciso manter a postura, nada de gritos ou correrias. A sua avó era daquelas senhoras muito britânicas, very much so, e com pouca paciência para traquinices of small people. A regra indoors era o silêncio e a compostura.
Mais tarde havia drinks antes de jantar, conversas de adultos sem grande interesse para as crianças e depois passava-se à casa de jantar, enfeitada para a ocasião, com uma grande mesa ao centro, onde cabia toda a gente sentada.
Só se falava em inglês. Havia sempre um enorme peru, que começava a ser assado de manhã muito cedo, com um recheio como só a sua avó sabia fazer e que ela nunca mais comeu na vida. Acompanhado com batatas assadas e outras iguarias verdes, que só por ser Natal os pequenos não eram obrigados a comer.
Depois havia mince-pies, lemon curd, taças com fudge e alguns doces trazidos pelas tias.
Depois do jantar, chegava hora do primeiro momento mágico: O Plum Pudding.
Apagavam-se todas as luzes e aquele bolo flamejante era transportado desde a cozinha até à casa de jantar sempre acompanhado da sua própria canção que família toda cantava em coro desde que o bolo vinha pelo corredor fora até à casa de jantar e acabasse de arder. A letra tinha sido adequada pelo seu tio mais novo estritamente para aquela celebração. As luzes continuavam todas apagadas e todos continuavam a cantar enquanto se concentravam naquela labareda acesa do bolo que se ia mantendo a arder ao despejar nele o molho feito com rum e açúcar, atiçando o fogo em sucessivas colheradas. Ela nunca gostou muito do sabor do bolo. Ficava fascinhada com momento e aguardava sempre pelos brindes que lá estavam escondidos. Moedas cuidadosamente embrulhadas em papel de alumínio!
Depois do jantar chegava a hora da árvore e do Menino Jesus. Passavam para a sala onde encostado à parede frontal da lareira se erguia um pinheiro enorme.
Carregado de velas que a sua avó acendia quando chegava a altura de cantarem as Christmas Carols. Todas as luzes apagadas de novo e o ambiente era iluminado só pelas labaredas da lareira acesa, onde repousava ao lado o berço de madeira do Menino Jesus, deitado em palhas que lhe faziam de colchão. A avó acendia as velas uma a uma e os espaço ia-se iluminando serena e lentamente, até as velas estarem todas acesas. Presas nos ramos da árvore, as pequenas velas iam ardendo enquanto a família toda à sua volta cantava canções de Natal, até se apagarem de mansinho. Às vezes era preciso apagar alguma que ameaçava fazer arder o ramo onde estava presa. Uma celebração sentida e vivida em pleno, comungada e partilhada por toda a família . Nesse momento sim. Eram os adultos e as crianças.
Carregado de velas que a sua avó acendia quando chegava a altura de cantarem as Christmas Carols. Todas as luzes apagadas de novo e o ambiente era iluminado só pelas labaredas da lareira acesa, onde repousava ao lado o berço de madeira do Menino Jesus, deitado em palhas que lhe faziam de colchão. A avó acendia as velas uma a uma e os espaço ia-se iluminando serena e lentamente, até as velas estarem todas acesas. Presas nos ramos da árvore, as pequenas velas iam ardendo enquanto a família toda à sua volta cantava canções de Natal, até se apagarem de mansinho. Às vezes era preciso apagar alguma que ameaçava fazer arder o ramo onde estava presa. Uma celebração sentida e vivida em pleno, comungada e partilhada por toda a família . Nesse momento sim. Eram os adultos e as crianças.
Sempre que no presente sente esse cheiro de vela apagada é transportada para aquela sala, calma e serena, iluminada pelo lusco-fusco das chamas da lareira, pelas velas da árvore que ardiam e onde se podia embalar naquelas canções de Natal. Eram momentos mágicos e encantadores.
Só depois deste ritual era chegada a hora de distribuir os presentes, e aí a pequenada podia dar largas ao seu entusiasmo.
Só depois deste ritual era chegada a hora de distribuir os presentes, e aí a pequenada podia dar largas ao seu entusiasmo.
Desde que a sua avó morreu, nunca mais teve um Natal assim. Outros se lhe seguiram, também amenos e acolhedores, mas com outras configurações.
Nunca foi muito próxima da sua avó e nunca teve com ela uma relação afectuosa como tradicionalmente os netos vivem com os seus avós. As lembranças fotográficas que tem dela são de uma mulher alta, hirta, seca e disciplinada, que impunha respeito e autoridade que ela nunca se atreveu a contestar. Não se lembra da sua avó alguma vez lhe ter dirigido um sorriso terno ou uma palavra meiga.
Nunca foi muito próxima da sua avó e nunca teve com ela uma relação afectuosa como tradicionalmente os netos vivem com os seus avós. As lembranças fotográficas que tem dela são de uma mulher alta, hirta, seca e disciplinada, que impunha respeito e autoridade que ela nunca se atreveu a contestar. Não se lembra da sua avó alguma vez lhe ter dirigido um sorriso terno ou uma palavra meiga.
Mas os seus Natais eram mágicos e ela guarda-os consigo com muita paz e ternura.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2007
Esperança
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente e a chuva não bate assim.
É talvez a ventania: mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia dos pinheiros do caminho...
Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza, que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente, nem é vento com certeza.
Augusto Gil, Balalada de neve
Etiquetas:
fotografia Maramar
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
Magoei os pés
Magoei os pés no chão onde nasci.
Cilícios de raivosa hostilidade
Abriram golpes na fragilidade
De criatura
Que não pude deixar de ser um dia.
Com lágrimas de pasmo e de amargura
Paguei à terra o pão que lhe pedia.
Comprei a consciência de que sou
Homem de trocas com a natureza.
Fera sentada à mesa
Depois de ter escoado o coração
Na incerteza
De comer o suor que semeou,
Varejou,
E, dobrada de lírica tristeza,
Carregou.
Miguel Torga
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
Está frio
Na minha casa o ambiente está aquecido e não dou pelo frio, mas vejo-o lá fora. É só espreitar pela janela. Rodeia-me por todo o lado. Mas não é só porque estamos no inverno.
Os dias são curtos e escurece muito cedo, mas anda tudo a correr. Oiço um buzinar constante. Gente cheia de pressa que se atropela para chegar ao destino mais depressa. Faz-se tarde e todos bufam estafados ao virar as esquinas. Encolhem-se de frio e escondem o nariz atrás do cachecol enquanto esperam em filas enormes para entrarem nos autocarros já atulhados de gente. Ou então desesperam no trânsito que não transita. E buzinam, tornam a buzinar, como se isso bastasse para fazer encurtar a distância e chegar mais depressa.
Não têm tempo. Falta-lhes tempo. Os ponteiros do relógio rodam a alta velocidade e eles ficam sem tempo. O tempo foge através do pulso, das mãos, do coração, do pensamento.
É a quadra natalícia.
É a quadra natalícia.
É o tempo de festa e alegria, mas anda tudo mal disposto e esgalhado. É o tempo de recolhimento, mas salta tudo para a rua aos encontrões. Era preciso que chovesse muito para lavar esta fúria toda que aí anda pelas ruas desalvorada, carregada de sacos cheios de nada. Estão todos a abarrotar de coisa nenhuma.
Estendem-se moedas em vez de mãos, trocam-se notas em vez de sorrisos. Mandam-se cartões electrónicos a desejar boas festas pela net altamente sofisticados, cheios de estrelas a cintilar no écran. Mandam-se mensagens por sms em linguagem abreviada - bntal e fliz 2008 (?????)- e eu é que estou doida e desluzida?
quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
Apontamento
A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.
Álvaro de Campos
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
domingo, 9 de dezembro de 2007
sexta-feira, 7 de dezembro de 2007
É preciso um escudo
É necessário tê-lo sempre amparado em nós, como se de uma bolha se tratasse. Não vá acontecer algo que surpreendentemente nos agrida gratuitamente, sem aviso prévio. Um escudo é essencial para proteger as fragilidades que todos temos, alguns mais que outros. É conforme sentimos a vida. Conforme as percepções que temos dela ou até as expectativas que criamos a tudo o que nos rodeia. É preciso essa protecção para que possamos carregar a vida sem sobressaltos, com a mágoa protegida, para que possamos guardar a força que nos resta para a alegria e aconchego que todos merecemos, precisamos e carecemos para sobreviver os dias.
Hoje aprendi que é preciso um escudo.
Hoje aprendi que é preciso um escudo.
Estamos sempre a aprender...
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
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