segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Um bom 2008

a todos que transporto comigo.


terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Lugares que guardamos

Histórias de infância, lugares que guardamos dentro de nós, aromas e essências que passam por nós no presente e nos transportam para espaços e momentos mágicos num flash back brando e morno, até aos dias inocentes da nossa infância, um passado que transportamos. Quem não os tem?
Bastou o cheiro de uma vela apagada para que o tempo a transportasse com saudade para muitos anos atrás, quando ainda criança, de tranças bem apertadas e vestido de smocks, passava o dia de Natal em casa da sua avó materna.
Celebrado sempre ao jantar de dia 25, era um momento mágico, rico em tradições.
Chegavam cedo, ao princípio da tarde. A mãe logo se dirigia para a cozinha, ajudando nas várias tarefas que ainda esperavam pelos últimos aperfeiçoamentos.

Enquanto isso as crianças brincavam lá fora no jardim, se não estivesse a chover. Se por azar isso acontecia, havia no andar de cima um enorme quarto onde ainda havia os livros e brinquedos da infância da sua mãe e das tias.
Lembra-se agora da casa de bonecas, toda feita pelo seu avô que pacientemente, enclausurado horas a fio no seu work-shop nas traseiras da casa, tinha serrado e limado pequeníssimas peças de madeira que se transformavam em cópias minúsculas e perfeitas da mobília daquela casa. Nunca tinha conhecido o seu avô porque morreu cedo, doente e cansado dos ferimentos sofridos na guerra. Só uma velha fotografia sépia emoldurada em cima da cómoda da sala denunciava um homem magro, de cabelo todo branco e o rosto vincado pelos anos. O sorriso esbatido chegava aos olhos, que se percebiam serem muito claros. Fixados a olharem para nós, mantinham um brilho terno e brincalhão, que contrastava com a sua figura.

A sua avó vivia numa casa nos arredores de Lisboa. Era uma casa com quartos e salas muito grandes para os seus olhos de criança, uma cozinha gigantesca que cheirava sempre magnificamente porque a sua avó era uma cozinheira formidável. Fazia uns manjares extraordinários, iguarias que só ela sabia fazer e cujas receitas guardava manuscritas, numa letra grande e bem desenhada, num caderno de capa preta, ao qual nem as filhas tinham acesso!

Era uma casa com um jardim cheio de esconderijos e árvores para subir e descer e onde ela podia correr à vontade na brincadeira com os seus primos direitos, todos rapazes mais novos e por vezes com o seu irmão, até ele ter idade para estar com os adultos. Foram tardes bem passadas, aquelas em que podia soltar-se e brincar, sem ninguém para lhe dizer para não fazer, para não sujar, para não asneirar.
Os “crescidos” ficavam dentro de casa. Eram dois mundos diferentes. O dos adultos e o das crianças. Nunca se misturaram. Uma vez dentro de casa, era preciso manter a postura, nada de gritos ou correrias. A sua avó era daquelas senhoras muito britânicas, very much so, e com pouca paciência para traquinices of small people. A regra indoors era o silêncio e a compostura.
Mais tarde havia drinks antes de jantar, conversas de adultos sem grande interesse para as crianças e depois passava-se à casa de jantar, enfeitada para a ocasião, com uma grande mesa ao centro, onde cabia toda a gente sentada.
Só se falava em inglês. Havia sempre um enorme peru, que começava a ser assado de manhã muito cedo, com um recheio como só a sua avó sabia fazer e que ela nunca mais comeu na vida. Acompanhado com batatas assadas e outras iguarias verdes, que só por ser Natal os pequenos não eram obrigados a comer.
Depois havia mince-pies, lemon curd, taças com fudge e alguns doces trazidos pelas tias.
Depois do jantar, chegava hora do primeiro momento mágico: O Plum Pudding.

Apagavam-se todas as luzes e aquele bolo flamejante era transportado desde a cozinha até à casa de jantar sempre acompanhado da sua própria canção que família toda cantava em coro desde que o bolo vinha pelo corredor fora até à casa de jantar e acabasse de arder. A letra tinha sido adequada pelo seu tio mais novo estritamente para aquela celebração. As luzes continuavam todas apagadas e todos continuavam a cantar enquanto se concentravam naquela labareda acesa do bolo que se ia mantendo a arder ao despejar nele o molho feito com rum e açúcar, atiçando o fogo em sucessivas colheradas. Ela nunca gostou muito do sabor do bolo. Ficava fascinhada com momento e aguardava sempre pelos brindes que lá estavam escondidos. Moedas cuidadosamente embrulhadas em papel de alumínio!

Depois do jantar chegava a hora da árvore e do Menino Jesus. Passavam para a sala onde encostado à parede frontal da lareira se erguia um pinheiro enorme.
Carregado de velas que a sua avó acendia quando chegava a altura de cantarem as Christmas Carols. Todas as luzes apagadas de novo e o ambiente era iluminado só pelas labaredas da lareira acesa, onde repousava ao lado o berço de madeira do Menino Jesus, deitado em palhas que lhe faziam de colchão. A avó acendia as velas uma a uma e os espaço ia-se iluminando serena e lentamente, até as velas estarem todas acesas. Presas nos ramos da árvore, as pequenas velas iam ardendo enquanto a família toda à sua volta cantava canções de Natal, até se apagarem de mansinho. Às vezes era preciso apagar alguma que ameaçava fazer arder o ramo onde estava presa. Uma celebração sentida e vivida em pleno, comungada e partilhada por toda a família . Nesse momento sim. Eram os adultos e as crianças.
Sempre que no presente sente esse cheiro de vela apagada é transportada para aquela sala, calma e serena, iluminada pelo lusco-fusco das chamas da lareira, pelas velas da árvore que ardiam e onde se podia embalar naquelas canções de Natal. Eram momentos mágicos e encantadores.
Só depois deste ritual era chegada a hora de distribuir os presentes, e aí a pequenada podia dar largas ao seu entusiasmo.
Desde que a sua avó morreu, nunca mais teve um Natal assim. Outros se lhe seguiram, também amenos e acolhedores, mas com outras configurações.
Nunca foi muito próxima da sua avó e nunca teve com ela uma relação afectuosa como tradicionalmente os netos vivem com os seus avós. As lembranças fotográficas que tem dela são de uma mulher alta, hirta, seca e disciplinada, que impunha respeito e autoridade que ela nunca se atreveu a contestar. Não se lembra da sua avó alguma vez lhe ter dirigido um sorriso terno ou uma palavra meiga.
Mas os seus Natais eram mágicos e ela guarda-os consigo com muita paz e ternura.

Silent Night

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Esperança



Batem leve, levemente, como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente e a chuva não bate assim.
É talvez a ventania: mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia dos pinheiros do caminho...
Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza, que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente, nem é vento com certeza.
Augusto Gil, Balalada de neve

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Magoei os pés

(
(foto Maramar)


Magoei os pés no chão onde nasci.

Cilícios de raivosa hostilidade

Abriram golpes na fragilidade

De criatura

Que não pude deixar de ser um dia.

Com lágrimas de pasmo e de amargura

Paguei à terra o pão que lhe pedia.

Comprei a consciência de que sou

Homem de trocas com a natureza.

Fera sentada à mesa

Depois de ter escoado o coração

Na incerteza

De comer o suor que semeou,

Varejou,

E, dobrada de lírica tristeza,

Carregou.
Miguel Torga

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Está frio

Na minha casa o ambiente está aquecido e não dou pelo frio, mas vejo-o lá fora. É só espreitar pela janela. Rodeia-me por todo o lado. Mas não é só porque estamos no inverno.
Os dias são curtos e escurece muito cedo, mas anda tudo a correr. Oiço um buzinar constante. Gente cheia de pressa que se atropela para chegar ao destino mais depressa. Faz-se tarde e todos bufam estafados ao virar as esquinas. Encolhem-se de frio e escondem o nariz atrás do cachecol enquanto esperam em filas enormes para entrarem nos autocarros já atulhados de gente. Ou então desesperam no trânsito que não transita. E buzinam, tornam a buzinar, como se isso bastasse para fazer encurtar a distância e chegar mais depressa.
Não têm tempo. Falta-lhes tempo. Os ponteiros do relógio rodam a alta velocidade e eles ficam sem tempo. O tempo foge através do pulso, das mãos, do coração, do pensamento.
É a quadra natalícia.
É o tempo de festa e alegria, mas anda tudo mal disposto e esgalhado. É o tempo de recolhimento, mas salta tudo para a rua aos encontrões. Era preciso que chovesse muito para lavar esta fúria toda que aí anda pelas ruas desalvorada, carregada de sacos cheios de nada. Estão todos a abarrotar de coisa nenhuma.
Estendem-se moedas em vez de mãos, trocam-se notas em vez de sorrisos. Mandam-se cartões electrónicos a desejar boas festas pela net altamente sofisticados, cheios de estrelas a cintilar no écran. Mandam-se mensagens por sms em linguagem abreviada - bntal e fliz 2008 (?????)- e eu é que estou doida e desluzida?

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Apontamento

(Foto Maramar)


A minha alma partiu-se como um vaso vazio.

Caiu pela escada excessivamente abaixo.

Caiu das mãos da criada descuidada.

Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!

Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.

Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.

Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.

E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.

São tolerantes com ela.

O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,

Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.

Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.

Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.


A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?

Um caco.

E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

Álvaro de Campos

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Somewere over the rainbow

Para começar bem a semana....

Keith Jarret


domingo, 9 de dezembro de 2007

A special guest!

With B.B. King. Enjoy!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

É preciso um escudo

(foto Maramar)



É necessário tê-lo sempre amparado em nós, como se de uma bolha se tratasse. Não vá acontecer algo que surpreendentemente nos agrida gratuitamente, sem aviso prévio. Um escudo é essencial para proteger as fragilidades que todos temos, alguns mais que outros. É conforme sentimos a vida. Conforme as percepções que temos dela ou até as expectativas que criamos a tudo o que nos rodeia. É preciso essa protecção para que possamos carregar a vida sem sobressaltos, com a mágoa protegida, para que possamos guardar a força que nos resta para a alegria e aconchego que todos merecemos, precisamos e carecemos para sobreviver os dias.
Hoje aprendi que é preciso um escudo.
Estamos sempre a aprender...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Thoughts for a cloudy day

(foto Maramar)


Dance
As if no one is watching you

Love
As though you never have been hurt before

Sing
As thought no one can hear you

Live
As though heaven is on earth

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Para o sossego dos minutos

Das horas, dos dias, dos apertos, dos desalentos, dos desencontros, ...a melhor terapia é uma boa música.
Para ouvir de olhos fechados e deixarmo-nos transportar com ela!

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Não vou amanhã a Seteais...

mas deixo aqui um cheirinho do que lá se vai passar....

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

I'm tired

Em viés


A via enviesada para ir-se em frente
a treda actuação de quem actua lealmente
e é tão impassível como comovente
O modo mais precário de ser mais permanente
de tentar tanto mais quanto menos se tente
de ser pacífico e ao mesmo tempo combatente
de estar mais no passado se mais no presente
de não se ter ninguém e ter em cada homem um parente
de ser tão insensível como quem mais sente
de melhor se curvar se altivamente
de perder a cabeça mas serenamente
de tudo perdoar e todos justiçar dente por dente
de tanto desistir e de ser tão constante
de articular melhor sendo menos fluente
e fazer maior mal quando se está mais inocente
É sob aspecto frágil revelar-se resistente
é para interessar-se ser indiferente

«in To Helena»; Ruy Belo, Transporte no Tempo

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Hoje é dia de capital...

Ouvi hoje durante o almoço. Fez-me lembrar os meus tempos de criança quando passava temporadas de verão em casa das minhas avós em moradias que ficavam afastadas do centro citadino e movimentado.
Tantas vezes ouvi dizer «vou à vila», ou seja, era dia especial de compras, de visitar amigos, de ir ao médico ou o que fosse que alterasse o quotidiano dos dias.
Fantástico ouvir de novo a expressão em pleno séc. XXI, entrelaçada no meio da conversa sobre as várias possibilidades da utilização dos GPS, ao mesmo tempo que se faziam chamadas por telemóvel para cantar os parabéns ao primo que fazia anos. Fabulosa a ementa– iscas à portuguesa – em agradável companhia numa tasca escondida num bairro bem no centro de Lisboa, rodeada de casas que faziam lembrar as tais moradias de tempos passados.
Há dias assim. Cheios de contrastes.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Nasci em Maio...


Aprendi com a primavera a deixar-me cortar e voltar sempre inteira.
(Cecília Meireles)

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

O que fazes?

(foto Maramar)
O que fazes quando a estrada te apresenta caminhos escuros e sem sinais de luz?

À falta de sentido de orientação junta-se uma cegueira que te fecha os olhos a tudo o que te rodeia e vais tacteando, apalpando o terreno aos encontrões, cambaleando pelo meio dos trilhos que consegues desvendar no meio do denso nevoeiro levantado pelo desalento e frustração.
São sonhos desfeitos, fruto deste tempo alucinado, preenchido de ritmos descompassados e descontrolados. Dias iguais, todos com a mesma cor, com os mesmos sons e ritmos. Nenhum sinal ou rosto diferente. Nada de novo.
O que fazes para mudar os dias?
O que fazes para recuperar a confiança esquecida no meio de um vazio pesado que vai crescendo, inchando, tal qual como um balão sem gás que fica por terra, sem poder subir ao céu? Acaba por secar, enrugado e deformado.
Que passos percorres na estrada seca que te conduz? E de onde vem essa estrada? Para onde segue? Com que sentido? Durante quanto tempo? E que tempo?
Por muita água que bebas, não é ela que te mata a sede.

Só a esperança te trará um dia diferente, uma hora aproveitada, um minuto ganho, sem o perderes. Essa nunca te larga. É verde, de um verde forte e alegre, raiado de luz prateada, como o mar ao entardecer.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Il fait froid

Il fait froid
L'hiver blanchit le dur chemin
Tes jours aux méchants sont en proie.
La bise mord ta douce main ;
La haine souffle sur ta joie.

La neige emplit le noir sillon.
La lumière est diminuée...
Ferme ta porte à l'aquilon !
Ferme ta vitre à la nuée !

Et puis laisse ton coeur ouvert !
Le coeur, c'est la sainte fenêtre.
Le soleil de brume est couvert ;
Mais Dieu va rayonner peut-être !

Doute du bonheur, fruit mortel ;
Doute de l'homme plein d'envie ;
Doute du prêtre et de l'autel ;
Mais crois à l'amour, ô ma vie !

Crois à l'amour, toujours entier,
Toujours brillant sous tous les voiles !
A l'amour, tison du foyer !
A l'amour, rayon des étoiles !

Aime, et ne désespère pas.
Dans ton âme, où parfois je passe,
Où mes vers chuchotent tout bas,
Laisse chaque chose à sa place.

La fidélité sans ennui,
La paix des vertus élevées,
Et l'indulgence pour autrui,
Eponge des fautes lavées.

Dans ta pensée où tout est beau,
Que rien ne tombe ou ne recule.
Fais de ton amour ton flambeau.
On s'éclaire de ce qui brûle.

A ces démons d'inimitié
Oppose ta douceur sereine,
Et reverse leur en pitié
Tout ce qu'ils t'ont vomi de haine.

La haine, c'est l'hiver du coeur.
Plains-les ! mais garde ton courage.
Garde ton sourire vainqueur ;
Bel arc-en-ciel, sors de l'orage !

Garde ton amour éternel.
L'hiver, l'astre éteint-il sa flamme ?
Dieu ne retire rien du ciel ;
Ne retire rien de ton âme !


Victor Hugo

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Chegou o Outono

E que Maravilha!!!!

Autumn Leaves - Keith Jarrett


Dá que pensar...

Uma frase escrita numa parede de Lisboa:

"É o medo de sermos livres que nos dá o orgulho de sermos escravos"

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

The healing game

terça-feira, 30 de outubro de 2007

terça-feira, 17 de julho de 2007

Colhe o dia

(foto Maramar)


Uns, com os olhos postos no passado,

Vêem o que não vêem: outros, fitos

Os mesmos olhos no futuro, vêem

O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —

A segurança nossa? Este é o dia,

Esta é a hora, este o momento, isto

É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora

Que nos confessa nulos.

No mesmo hausto

Em que vivemos, morreremos.

Colhe o dia, porque és ele.

Ricardo Reis

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Irish wonder

Desperdício

(foto Maramar)
Quando não vês as manhãs claras que anunciam
O renascer do que ontem ficou
Quando não já ouves os gritos que ecoam
Dos pássaros que ouvem o que não podes

Quando já não sentes o aroma que deixou
Aquele momento que já passou
Quando deixaste de procurar o calor
Da hora que viveste e não voltou

Quando já te esqueceste de sorrir
Porque a tua vida se fechou
A um longo silêncio se abandonou
Numa sombra se embrulhou e assim ficou

Quando já não lembras o que te abarcou
À tua alma e a quem te amou
Quando já nada sequer te importou
Porque o teu ensejo se desbotou

terça-feira, 10 de julho de 2007

Sometimes we cry

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Flores


(foto Maramar)
Era preciso agradecer às flores

Terem guardado em si,

Límpida e pura,

Aquela promessa antiga

De uma manhã futura


Sophia M. Breyner


quinta-feira, 5 de julho de 2007

Let's dance?

I'm in the mood...



quarta-feira, 4 de julho de 2007

Chega...

(foto Maramar)
Chega uma palavra
Uma só, mas que seja tua
Não do que ouviste, ou fizeste
Mas uma palavra para mim,
Que seja tua

Exultada, transparente, líquida
Despojada, tudo me conta
Despida, tanto me explica
Do que me visto neste absurdo

Não preciso de um discurso
Não procuro um manifesto
Só peço uma palavra tua
Que me sopre de tudo o resto

Para que tudo o que eu aperto,
Para que tudo o que não arredo
Encaixe no filme que me sobra
E o que há-de vir me pareça certo.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Sweet thing




And I will stroll the merry way
And jump the hedges first
And I will drink the clear
Clean water for to quench my thirst
And I shall watch the ferry-boats
And they'll get high
On a bluer ocean
Against tomorrow's sky
And I will never grow so old again
And I will walk and talk
In gardens all wet with rain
Oh sweet thing, sweet thing
My, my, my, my, my sweet thing
And I shall drive my chariot
Down your streets and cry
'Hey, it's me, I'm dynamite
And I don't know why'
And you shall take me strongly
In your arms again
And I will not remember
That I even felt the pain.
We shall walk and talk
In gardens all misty and wet with rain
And I will never, never, never
Grow so old again.

Oh sweet thing, sweet thing
My, my, my, my, my sweet thing
And I will raise my hand up
Into the night time sky
And count the stars
That's shining in your eye
Just to dig it all an' not to wonder
That's just fine
And I'll be satisfied
Not to read in between the lines
And I will walk and talk
In gardens all wet with rain
And I will never, ever, ever, ever
Grow so old again.
Oh sweet thing, sweet thing
Sugar-baby with your champagne eyes
And your saint-like smile....

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Alfacinha de gema

(foto Maramar)
Numa altura em que muito se fala da cidade das 7 colinas, se discutem os seus vícios e desencantamentos, nestes dias em que a classe política lisboeta se desdobra para encontrar os piores defeitos que a cidade tem, deixo aqui um registo da cidade mais bonita que conheço.
Não me parece que exista pelos quatro cantos do mundo, e sobretudo para uma alfacinha como eu, melhor maneira para entrar e descobrir a cidade como esta que fazemos quando entramos em Lisboa pelo sul, seja por terra, ar ou mar. Esbanjada à nossa frente, cidade branca, repleta de luz. A qualquer hora do dia ou estação do ano. Esta vista de Lisboa é sempre deslumbrante!

quinta-feira, 28 de junho de 2007

meia hora por dia

(foto Maramar)




Nada melhor do que uma criança de oito anos ávida de atenção permanente, carinho e motivação para que tenhamos de fazer parar o ritmo acelerado do dia, atestado a cada minuto em (des) quefazeres e abrandarmos o passo. O nosso movimento e “estar” passa a ser entregue ao próprio tempo e ritmo da criança. Coisa fantástica!

No caminho entre a escola e o chegar a casa, um “desvio” de meia hora passou a ser rotina. Basta isso. Só meia hora. Toda ela dedicada ao sabor da vontade. Lanchar num jardim, correr pela relva fora, comer um gelado à beira-rio, ou simplesmente sentar-se num banco e deixar a conversa correr. Porque nunca faltam assuntos de conversa. Sobre as aulas, sobre a ferida no pé que ficou do jogo de futebol, sobre a proeza feita na aula de ginástica que ninguém conseguiu igualar.

Também não faltam os intermináveis porquês de quem tem a curiosidade à flor da pele. Tudo o que o rodeia é motivo para questionar. Tanta coisa por descobrir!...e que nunca reparamos durante a fúria dos dias!


E durante essa meia hora damos por nós a viver a vida, em vez de a sobreviver.




terça-feira, 26 de junho de 2007

Richard Bach

(foto Maramar)
Começarás a aproximar-te do Paraíso no momento em que alcançares a velocidade perfeita. E isso não é voar a mil e quinhentos quilómetros à hora, nem a um milhão e quinhentos mil, nem voar à velocidade da luz. Porque nenhum número é um limite e a perfeição não tem limites. A velocidade perfeita, meu filho, é estar ali.

Desde que o desejes, podes ir a qualquer lugar e em qualquer momento,(...)As gaivotas que desprezam a perfeição por amor ao movimento não chegam a parte alguma, devagar. As que ignoram o movimento por amor à perfeição chegam a toda a parte, instantâneamente. Lembra-te Fernão, o Paraíso não é um lugar nem um tempo, porque lugar e tempo não significam nada.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket

Autárquicas de Lisboa

domingo, 24 de junho de 2007

Mummy

sexta-feira, 22 de junho de 2007

segunda-feira, 18 de junho de 2007

For days like this

Foi prometido!

sábado, 16 de junho de 2007

ao meu pai

Faria hoje 78 anos.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Mas se chover...como se diz por aí...

Desafio todos a um karaoke...dá para pequenos e graúdos

Preparados para o fim de semana?

Eu não vou beber nescafé, mas um café na praia não me vai escapar...

quinta-feira, 14 de junho de 2007

De noite recordou

(foto Maramar)
A braços com a noite
Mais teimosa do que escura,
Passa-lhe de novo o filme escorrido
do passado que abafou

São películas antigas, esmagadas,
Por entender e desagasalhadas
Numa gaveta aferrolhada
Que nunca mais abriu, desencantada

E só a noite a acompanha
Nesta conversa tão estranha
O filme passa, teimoso recorda
As lembranças que não quer evocar

E porque é que só a noite
Tudo isto a vai lembrando?
Diz-lhe noite, se puderes
O que se faz para resolver
Tanta coisa por entender?

De criança só se lembra
Dos desencontros em que cresceu
E ainda hoje não se esqueceu
De cada choro que escondeu

Diz-lhe noite, já que teimas
Nessa conversa atormentada
Que anjo foi que a guardou
E nesses dias a aconchegou?

Porque tudo o que deu e encontrou
Foi porque amou e se entregou
E porque o que tinha, tudo deu
O que não deu, não reparou

E foi assim que aqui chegou
De corpo e alma se esbanjou
Tudo o que ficou e o que restou
Daquela gaveta que trancou

E se mais não dá, ou se não deu
E se mais não faz, ou se não fez,
Foi porque de noite recordou
Tanta coisa que não conheceu!

terça-feira, 12 de junho de 2007

De que vale correr assim
Numa corrida sem beira
Toda a hora num frenesim
Até a vida nos saber a poeira

E somos gente mesmo assim...

O dia começa desaforado
Temos pressa de o ver acabado
Iludidos, tontos, em atropelos
Deixamos para depois os nossos zelos

E somos gente mesmo assim...

E de esgar assomado, apressado
E acelerado, nem damos conta
Que afinal a vida nos passa ao lado
E quem nos chama, não nos encontra

E somos gente mesmo assim...

E estafados continuamos
A desbravar o nosso caminho
Tão teimosos, nem reparamos
Nesse trilho está o nosso engano!

E somos gente mesmo assim...

E em tornado permanente
A nossa vida segue em frente
Tão depressa, é extraordinário
Parar não consta do vocabulário

E somos gente mesmo assim...

Quando no meio do frenesim
Recordamos a paixão
O motivo e a razão
Que nos faz correr assim!

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Somos incorrígiveis, os portugueses...

Último dia da feira do livro. Completamente enganada, achava que só acabava na 4ª feira dia 13. Quando me disseram que era o último dia, já passava das 10h da noite. Disparei rumo ao parque e tive uma hora de correria pelas bancas para encontrar o que queria. Mas enchi as minhas medidas.... Tudo ao desbarato! As editoras só queriam ver-se livre dos livros para não terem de os empacotar no dia seguinte. Vim de lá carregada e a carteira não se queixou muito.
Afinal o "tarde e a más horas" compensa!

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Ouço-os de todo o lado,
Eu é que sou assim,
Eu é que sou assado,
Eu é que sou um anjo revoltado
Eu é que não tenho santidade...

Quando, afinal, ninguém põe nos ombros a capa da Humildade,
E VEM!

Miguel Torga, Diário I

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Mafalda e o mar

terça-feira, 5 de junho de 2007

Uma manhã no Sapal

(foto Maramar)
Páscoa passada no Sapal.
A calma serena e mansa daquele lugar era um frasco de tranquilizante para quem procurava uns dias de repouso, fora do vício ansioso do movimento e da loucura da grande cidade. Um lugar para onde regressava sempre com grande expectativa e de onde partia com imensas saudades.
O contraste que a casa pequena fazia com a imensidão de espaço verde e tranquilo do seu exterior fazia-a sempre sentir assim: Que precisava de sair para fora daquelas quatro paredes. Mesmo que o tempo não convidasse. Foi o que lhe aconteceu naquela manhã, que madrugara triste e cinzenta.
O céu azul acinzentado estava coberto de grandes nuvens brancas, de aspecto fofo e espesso, pareciam quase rama de algodão doce. O sol, quando aparecia envergonhado através das pequenas gretas que elas autorizavam, era morno e acolhedor. Mas rapidamente era obrigado a esconder-se.
Sentou-se numa das cadeiras que lá estavam fora desde a véspera, fechou os olhos e apurou os sentidos. O cantarolar dos pardais e das andorinhas compunham um espantoso concerto, bastava concentrar o ouvido. De vez em quando passava a sua amiga cegonha a rasar o voo baixinho mesmo ali ao pé dela, asas abertas e esticadas, solta, livre e ao sabor do vento....a felizarda! E o sol, sempre que podia, aquecia-lhe o rosto e a alma.
As garças saltitavam pelo pasto mesmo ao pé da romãzeira, nas traseiras da casa. Pareciam perdidas, atarantadas, de pescoço levantado. Estavam certamente à procura das vacas. Mas essas naquela manhã estavam do outro lado do rio. Bichos enormes e pachorrentos aquelas vacas! Naquele ano nem havia vitelos, eram umas 8 ou 10 enormes, colossais, umas todas castanhas, outras malhadas de branco, gordas e anafadas pelo farto pasto que cobria o Sapal de verde naquele ano.
Uma asa delta ao longe cruzava voos no céu, dando voltas e reviravoltas num grande alvoroço sem motivo aparente, porque o vento nem sequer soprava muito forte. Estranho...nunca tinha visto um voo tão agitado. Depois percebeu porquê. Numa das suas voltas, fez uma curva mais larga e de repente baixou a altitude lançando-se num voo alucinante, rasado e directo mesmo por cima do lago dos flamingos. Certamente assustados com aquelas asas imensas, largas e coloridas, levantaram voo todos ao mesmo tempo, formando no céu uma nuvem de salpicos brancos e agitados. Perante este cenário, só lhe faltava o soundtrack do “Out of Africa” para que tudo fosse perfeito.
A casa continuava adormecida e o filme de desenhos animados de um qualquer canal espanhol que o seu filho mais novo via na televisão devia ser interessante, porque ele continuava lá preso e entretido. Decidiu dar uma volta pelo Sapal e esticar as pernas. Estava ainda de roupão, mas isso não importava. A vantagem de não ter vizinhos, a não ser as vacas a pastar ao longe, os pombos e as andorinhas que voavam em bandos. Lá ao fundo, à beirinha do portão despontavam grandes buchos de jarros selvagens e prometeu a si mesma que levaria um ramo deles para Lisboa. Já meio do pequeno passeio deu-se conta da beleza dos arbustos selvagens por onde passava. Começou a apanhar espigas, depois mais à frente encontrou um arbusto que tinha umas ramagens salpicadas de pequeníssimas flores que iam do verde ao laranja. Depois outros diferentes mais ao lado. Mais à frente outra espécie, mais bonito ainda. Lindos! Foi apanhando deliciada, e em pouco tempo juntou um ramo tão grande que já não cabia no abraço da mão. Voltou para casa satisfeita com o seu ramo de flores silvestres e teve pena de não saber os nomes de cada uma delas. O ramo era tão bonito ....e já o imagina numa jarra em Lisboa. Um cheirinho daquela calma verde e morna do Sapal.
Quando entrou pela porta e mostrou animada o trofeu ao seu filho, ele desviou o olhar e encolheu os ombros desinteressado. «Ervas! Para que é que a mãe quer isso?»
Ainda pensou em explicar-lhe que todas as flores são bonitas, se tivermos cuidado a olhar para elas com atenção. Não precisam de ser viçosas, com toque de seda e de cores exóticas como as que ele estava habituado a ver nas floristas. Mas desistiu. Já estava embrenhado de novo na televisão. Entreteu-se a atar os pés das flores e proteger os pés com papel húmido para que se aguentassem até chegarem a Lisboa.
Estava na hora do café. Aqueceu a chávena no micro-ondas e foi bebê-la lá para fora, sentada na sua cadeira. Agora o azul do céu começava a desvendar-se cada vez mais e o dia abria-se, despedindo-se das nuvens. Teve vontade de seguir o seu impulso, vestir-se depressa e partir para a praia. Mas deixou-se ficar quando começou a ouvir grunhidos de gente que se espreguiçava, portas que se abriam e fechavam e barulhos na cozinha de cereais despejados nas taças. A casa finalmente acordava.

As canções preferidas

São tantas, tantas...Mas esta tem-me acompanhado desde sempre.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Pedras no caminho?

(foto Maramar)


Vou construir um castelo....

domingo, 3 de junho de 2007

Have a little faith ...

Histórias à beira-mar

«O mar é azul...» desafia o meu filho mais novo.
Sentados à beira-mar, num daqueles dias esplendorosos de verão em que só apetece mesmo estar ali, naquele sítio, sentir a areia que nos acolhe no colo e depois mergulhar naquele mundo fresco e fervilhante que nos convida a abraçá-lo.
«Mãe, o mar é azul...» insiste, encosta-se a mim, e espera...Quer ouvir de novo a história das cores do mar.
Não, o mar não é azul, é muito mais do que azul! Antes de mais, o mar é transparente. Quando chegamos mesmo à beirinha para molhar os pés, conseguimos vê-los à transparência. Assim como a água que ele vai buscar com o balde para fazer os castelos. E tudo o que é transparente brilha quando lhe reflectimos a luz. Como o vidro ou o gelo. O mar também brilha, parece um enorme espelho quando o sol começa a descer e a fechar o dia, ao fim da tarde.
Mas de manhã muito cedo, quando o dia nasce, o mar encontra todos os tons de verde. Desde o mais claro ao mais escuro, à medida que vamos alargando o olhar até ao horizonte. Aí ele guarda sempre uma faixa mais escura, de um cinzento azulado, como se estivesse triste por se despedir de nós, porque deixamos de o alcançar. Só quando o dia começa a subir o mar encontra os azuis. O sol já vai no alto e o mar alarga a palete de cores sempre que as ondas dele se levantam, primeiro devagar, azuladas e preguiçosas. No início parecem cansadas, movimentam-se lentas e arrastadas. Quando começam a engordar mais à frente, é como se fizessem entre elas um campeonato, para ver qual delas chega mais alto, e esticam-se, esticam-se até não poderem mais, em tons de verde claro, mais claro, ainda mais claro, enquanto sobem mais alto..., mais..., mais ainda! E quando já não conseguem aguentar mais, rebentam e desfazem-se numa enorme espuma branca, brilhante, vigorosa. E o mar fica branco, fervilhante de vida e movimento.
E de noite...De noite o mar é negro, grandioso, misterioso. Envoltos no silêncio da noite, podemos imaginar a ondulação porque se ouvem bem as canções das ondas, o seu resfolhar contínuo, incansável, continuamente em movimento. Se a noite for de lua cheia, então sim, podemos ver aquela faixa de espuma branca rebentada, que o luar faz brilhar, contrastanto com aquele negro imensurável.
O mar não é azul. O mar tem em si todas as cores.

sábado, 2 de junho de 2007

If I could!

Send in the Clowns

E que dupla!


sexta-feira, 1 de junho de 2007

24 horas


(foto Maramar)
São horas percorridas de um dia,
Cada passo da tua vida,
Cada minuto do teu tempo formatado.
Tempo corrido, esgalhado,
Desenfreado, estafado, nunca atrasado,
No teu relógio cumprido

O teu tempo é veloz,
O teu dia timbrado,
Na feição da tua agenda.
Não tens tempo, tens de correr,
E o teu sentir fica guardado,
Para mais tarde calado.

Pára.
Amolece o teu tempo,
Preguiça no teu minuto,
E não o guardes para depois.
Pára e experimenta cada segundo,
Porque o tempo não volta,
De nada te serve se adiado

Pára.
Na volta dos ponteiros
Do teu relógio arrebatado,
E sente a luz do dia que começa.
Que é já. Agora.
Sossega, Ouve, Respira fundo.
Anima para a cor do teu dia,
Ouve os passos que andam por perto,
E de alma aberta,
sente o pulsar em teu redor.

E Ama, Ri, Abraça, Canta!
e comunga a partilha
do sonho do teu segundo!
Larga a armadura que te prende
E solta a tua luz, confia! ...

E celebra a tua vida,
Que em cada dia renascer
Do teu permanecer!

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Parabéns a uma flor do meu jardim!

(foto Maramar)
Com ternura eu sorri
Em cumplicidade tu sorriste,
No momento certo ele sorriu
E de alma aberta vamos sorrir

Tudo o que cabe num sorriso
Não se ensina, nem se explica
Rasgado no rosto confiante
Chega aos olhos num instante!

Chega de rostos cinzentos por aí!
Basta de sirenes florescentes por aqui!
Vamos acertar o tom por acolá!
E sorrir às cores que ficaram por cá!


quarta-feira, 30 de maio de 2007

Senta-te aqui

Senta-te aqui ao meu lado. Não, aí não. Aqui, mesmo à minha frente, para eu te poder ler os olhos. Isso, aqui mesmo ao meu lado. Porque eu consigo ler-te os olhos. E conta-me histórias. Sim..., histórias! Despeja as palavras da tua boca hirta pelo desgaste do dia e solta o que elas te sussurram, o que elas te contam, conta-me as suas histórias. Histórias do teu dia, das tuas horas, do teu tempo. As tuas aventuras, os teus sonhos e desejos. Histórias dos teus encontros e desencontros, foram muitos hoje? Que rostos passaram por ti? Que cores viste hoje? Sentiste o vento logo cedo pela manhã? Eu senti. Era frio e fez-me encolher por baixo do casaco. Mas depois ouvi o cantar de um melro a anunciar o dia e senti a cor da jornada que nascia, aquela luz líquida, que tudo contornava, que escorria por todo o lado e tudo invadia. E deixei de ter frio.
Conta-me histórias....anda, não as guardes para ti. Olha para mim. Isso, bem nos meus olhos. O que vês?Eu vejo tanta coisa! São tão bonitos os teus olhos! Já pensaste bem o que se pode ver no olhar dos outros? Eles não mentem. Podemos disfarçar, fazer o que quisermos para desviar o olhar, escondê-lo, mas ele nunca mente. Abre-os bem abertos, deixa-os estar assim, bem abertos para o que podes ver, já que não podes saber até onde podes olhar. Mas deixa-os abertos. E através deles, solta as palavras e vai-me contando histórias, do que vêem, do que viram, do que sonham em ver e do que já não querem ver mais.
Vá, conta-me as tuas histórias.....

terça-feira, 29 de maio de 2007

Dia Mundial da Energia.Por cá as coisas funcionam assim....

Somos diariamente confrontados com os efeitos que provocamos pelo constante e inadequado aumento de consumo das energias não renováveis. O "efeito de estufa”, “aquecimento global”, fazem parte do nosso vocabulário, e ainda bem.
Todos sabemos da importância e vantagem das inesgotáveis energias renováveis, somos diariamente alertados para o consumo moderado de energia, os programas escolares do 1º ciclo já abordam estas temáticas, tão importantes no mundo actual e que urge dinamizar e explorar.
É urgente consciencializar a humanidade para a importância desta questão que nos aflige a todos e à futuras gerações. Foram dados os primeiros passos para o alerta. Mas há tanto ainda por fazer...


Hoje é o dia mundial da energia.
Por acaso também foi dia de eu voltar ao balcão da EDP para pagar uma conta. Já lá tinha estado na véspera, mas faltavam ainda acertar mais contas.
Chego logo de manhã, antes de entrar ao serviço, o relógio dá as horas e a fila continua na mesma: parada. A menina da caixa, de unha pintada de roxo, semblante pardo e mal disposto, brada em voz alta e esganiçada. A impressora não funciona. Não tem trocos para dar porque o colega ainda não chegou do banco. E parece que a culpa é nossa, porque a fila continua na mesma. Quando finalmente chega a minha vez, cumpro a minha parte do contrato. E qual não é o meu espanto, oferecem-me uma lâmpada economizadora. Mas antes perguntam se posso responder a um inquérito.
Uma outra menina de balcão, que certamente terá frequentado daqueles mini-cursos de front-office, esboça um sorriso vítreo, daqueles que não chegam aos olhos, e fala em tom de voz flautado: «São só uns segundos, porque é dia mundial da energia». Está bem, já que estou atrasada, mais uns segundos não fariam grande diferença e acato o meu dever de cidadã consciente. Mas o inquérito nunca mais acaba. Só falta perguntar o que tinha comido ao pequeno almoço. Já irritada com tanta pergunta fora do contexto, quero saber qual a finalidade. Responde-me a menina treinada: «Não sabemos. Só estamos aqui para fazer as perguntas...»

A direcção certa

(foto Maramar)



O relógio bate o ponto
No pulso apressado dos dias
Avança em passo adiantado
Não se comove com arrelias

Sempre certo, marca o passo
E lá vamos em correria
O nosso tempo trespassado
No seu ponteiro afiado

O engano é sempre o mesmo
A aventura o reconhecimento
Que cada passo que nós damos
Não tem relógio nem tempo

A direcção certa da vida
É o que temos de acertar
Ajustar os ponteiros da bússola
E deixar o relógio dormitar

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Sonho


Em ondas frescas que me embalem
E me tragam novas do horizonte
Para lá do risco de me limita
Onde o desconhecido me espera

Na cor da semente de rasga a terra
Quando em flor brotar o seu encanto
Do caminho suado e rasgado em dor
Em luz brilhar o seu esplendor

Que os olhos que vivem com os meus
A mim entreguem a sua cor
E os nossos tons se misturarem
Numa só cor que encontrarem

domingo, 27 de maio de 2007

Do alto de Lisboa





O espectáculo era digno de ver. Aqui fica o registo da cascata que iluminou o tejo ontem à noite. Vista de um sítio privilegiado, para o qual só tive que subir um andar...








sábado, 26 de maio de 2007

quinta-feira, 24 de maio de 2007

True colors




You with the sad eyes
Don't be discouraged
Oh I realize
It's hard to take courage
In a world full of people
You can lose sight of it all
And the darkness, inside you
Can make you feel so small

But I see your true colors
Shining through
I see your true colors
And that's why I love you
So don't be afraid to let them show
Your true colors
True colors are beautiful,
Like a rainbow

Show me a smile then,
Don't be unhappy, can't remember
When I last saw you laughing
If this world makes you crazy
And you've taken all you can bear
You call me up
Because you know I'll be there

And I'll see your true colors
Shining through
I see your true colors
And that's why I love you
So don't be afraid to let them show
Your true colors
True colors are beautiful,
Like a rainbow

So sad eyes
Discouraged now
Realize

When this world makes you crazy
And you've taken all you can bear
You call me up
Because you know I'll be there

And I'll see your true colors
Shining through
I see your true colors
And that's why I love you
So don't be afraid to let them show
Your true colors
True colors, true colors

Cos there's a shining through
I see your true colors
And that's why I love you
So don't be afraid to let them show
Your true colors, true colors
True colors are beautiful,
Beautiful, like a rainbow

terça-feira, 22 de maio de 2007

Lendas da estrada


Era um traço branco impresso no alcatrão da estrada, estampado, formatado. Circunscrito à forma que lhe fora imposta, separado dos semelhantes que, iguais a ele e alinhados, nasceram para sofrer a mesma condição. A única coisa que o separava dos outros traços era o intervalo negro do alcatrão. Limitado, nasceu para limitar e sofrer em agonia o desgaste das estradas, das avenidas, dos caminhos dos atropelos. Calcado, atropelado, preso ao seu destino.

Do sofrimento e amargura carimbada, o calvário rebenta-lhe novas formas, liberta-o da linha abreviada que o destino lhe traçou, e vencido o passado, ainda escancarado no alcatrão, vai-nos contando histórias mitológicas, inventadas pelo tempo.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Van

Para quem gosta...desta vez vai uma que está no meu disco....the man himself!!



disfrutem!

Sonhos diferentes

(foto Maramar)






Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é o presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,
Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui
São sonhos diferentes.
Ricardo Reis

domingo, 20 de maio de 2007

Digam o que disserem...


Portugal continua VERDE...

(fotos Maramar)











Urgentemente


É urgente o amor
É urgente um barco no
mar

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas

É urgente inventar alegria
multiplicar os beijos, as searas,
É urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras

Cai o silêncio nos ombros
e a luz impura até doer
É urgente o amor,
É urgente permanecer


Eugénio de Andrade






sábado, 19 de maio de 2007

Into the Mystic

Nova escapadela ao mar para recuperar energias. O mar é tudo!

O sol começa a saber a verão e por isso o areal enche-se de gente. Já foi preciso procurar um sítio para estender a toalha.À medida que a tarde avançava, cresciam os para-ventos e tendas de campismo para o reguardo do vento que levantava.Bolas, raquetes, e tijolos portáteis que gritavam em altos berros música pimba. Os telemóveis tocavam permanentemente.
Acabou-se o sossego...os infindáveis caminhos de areia...
O que me valeu hoje, para além do mar, que ondulava fervilhante de vitalidade, foi o Van Morrison, numa selecção sublime e exclusiva, que me afastou deste desassossego, através dos meus head-phones.


Ao Pedro pela selecção das canções e ao Duarte pela composição, dedico esta tarde, que me soube muito bem.

O prazer de ler

Vivo rodeada de livros. De todos os géneros, mas sobretudo poesia. Desde muito cedo virada para o universo do papel, letras, histórias e idéias... Herança do meu pai certamente, que descobri já adulta, quando já acamado e doente, me pedia para lhe ler poesia.
Tenho sempre vários em mãos, inacabados. Porque pego neles conforme o estado de espírito. Ando sempre com um na carteira, à espera de uma pausa durante o dia para lhe poder pegar. Nem sempre consigo, mas transporto-o na carteira na mesma. Faz-me companhia. Nunca se sabe, quando se sai de casa de manhã para a fúria e correria do dia, se aquela merecida pausa não poderá surgir. Sempre que esse milagre acontece, agarro logo nele. Os meus livros espalham-se pela casa, em pilhas diversas, à espera de eu ter uns minutos para passar os olhos por eles. Na mesa de cabeceira a pilha vai aumentando. A minha fada do lar, certamente espantada com tanto livro que se vai amontoando ao lado da minha almofada, arruma-os nas estantes. Para os encontrar no mesmo sítio quando cá volta. Já desistiu, e percebeu que é mesmo assim. São para lá estar ao pé de mim.

Acabei um ontem. Delicioso!



Relógio d’Água, 2006


«e havia qualquer coisa no silêncio. rose gostava do silêncio e de alguma música, de sons de animais, do som da água. estava perto do mar, e perguntou a si mesma se aquele caminho terminaria no mar, todos os caminhos acabam no mar, ou pelo menos o meu acaba, sempre o soube, como um barco ou uma gaivota»

sexta-feira, 18 de maio de 2007

O Jogo dos Preferidos

Eu e o meu filho mais novo inventámos um jogo.
Para aqueles dias cinzentos, mesmo que o sol brilhe com toda a força. Para aqueles dias em que nada nos parece claro, porque está escondido num grande nevoeiro e não conseguimos ver o que está por trás, está tudo muito escuro, estamos desalentados com o dia, com o que ele nos trouxe ou nos mostrou.
Porque há dias assim. Como quando a equipa dele perdeu no torneio de futebol, ou quando o melhor amigo não quis brincar, ou quando não conseguiu fazer o raio daquela conta de dividir e ficou a trabalhar na sala de aula à hora em que todos os amigos brincavam no recreio. Para os dias em que nos sentimos pequeninos, em que nos faltou o ânimo, ou nos deram um pontapé, não há nada melhor do que este jogo!
É um jogo muito simples, que recomendo a todos os que por vezes sentem o ânimo em baixo, lá mesmo no fundo. Quando precisam de levantar a cabeça e pensar no melhor que a vida nos traz.
É o Jogo dos Preferidos. Muito fácil e estimulante!
É só pensar, num despique a dois, (mas que pode ser feito com muitos ou sozinhos) e que pode não ter fim, que se transforma numa grande lengalenga e nos vai abrindo a alma.
Começa sempre com a mesma pergunta: "Qual é o seu lugar preferido?"
E o lugar vai variando conforme o dia. Num dia é a cama quentinha no inverno, noutro dia é um jardim, noutro é a praia, noutro o colo da mãe. É conforme o estado de alma, ou a descoberta de novos lugares que a vida lhe vai mostrando. E sabe tão bem pensar no nosso lugar preferido!
O meu é sempre ao pé do mar. Ele já sabe a minha resposta a essa pergunta. É sempre o pé do mar. Por isso passamos para outra pergunta: "Qual é a sua cor favorita?"
E esta também vai mudando conforme o dia. Nuns dias é o verde, como o da relva, noutros é o azul, como o do céu, noutros é o branco, como o da luz. Depois vem a palavra preferida, o número preferido, a estação do ano, o animal, a flor, o filme...livro.... amigo...cheiro...sabor...bebida...
Vale tudo! Só não vale responder “porque sim”. É preciso explicar porquê. Dizer se é preferido sempre, ou só naquele dia. Mas sobretudo explicar porquê. Porque gosta da luz, que é branca e ilumina, porque gosta do verde que é a cor da relva onde pode correr e jogar futebol, ou espreguiçar-se nela e olhar para o céu...
E o jogo pode arrastar-se por muito tempo, até que acabamos por ficar contentes por dentro. E esquecem-se os pontapés, a hora do recreio que perdemos, o amigo que nos desiludiu. Só de pensar nas coisas preferidas da vida!
Experimentem!
E lanço aqui um desafio: Qual é a vossa palavra preferida?

e outros assado...

porque há dias assim...

(foto Maramar)

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Mimos em capicua

Foram muitos, vindos de todo o lado.
Primeiro a manhã, amena e cheia de brilho. O prenúncio daqueles dias brilhantes de sol que eu gosto tanto. Depois os mimos dos meus, que acordaram para o dia murmurando sonolentos: Muitos parabéns......
Mais tarde e durante todo o dia a presença de tanta gente, que me foi desejando "o melhor da vida", "porque foi bom ter nascido e estar ao pé de nós", "com muito carinho". Uma visita inesperada e despejada de ternura....
Enchi-me de Graça, e fui mais uma vez abençoada neste dia. Como aquela tarde que passei ao pé do mar....

...e já no fim do dia, o calor de uma mesa esbanjada de carinho e presença. Que fome que eu tinha desta mesa, deste estar!
Um dia que guardarei muito perto de mim, como um dos presentes que recebi e me murmurou:

Como o rumor do mar dentro de um búzio
o divino sussurra no universo
Algo emerge: primordial projecto

Eu regressarei ao poema como à pátria à casa
Como à antiga infância que perdi por descuido
Para buscar obstinada a substância de tudo
E gritar de paixão sob mil luzes acesas
Sophia de MB

O Mar!




Depois de algum tempo vivido na escuridão, perdida, desencontrada, e enrolada num casulo onde o desalento e a amargura me enfiou, eis que começo lentamente, muito lentamente a ver uma luz. A luz da minha vida reencontrada, escancarada na minha frente, sopro de esperança, espantada de uma nova energia. Foi numa tarde junto ao mar...quando ele sorriu para mim!
Não importa o que o passado fez de mim. Importa é o que farei com o que o passado fez de mim.
(autor desconhecido)

quarta-feira, 16 de maio de 2007

A primeira nota

Obsessivamente teimar
Indispensável acreditar
Jamais fraquejar e desistir
Imprescindível insistir

No sentir do peito desapertado,
No olhar limpo e desabotoado,
No afago doce e confiado,
No afecto em gesto escancarado!

Sem assegurar assim a vida,
Perde o sentido a caminhada.
Pasta em desamor
Cobarde e escondido.
Murcha e seca,
Adormece amargurada.

Porquê capicua?

Porque hoje faço anos, porque é ano de capicua e porque gosto viver e fazer anos.
E de escrever notas. Soltas, despejadas, desvairadas, asneiras que escrevo em papéis soltos e desordenados. Escrever liberta, despeja a alma, solta o pensamento, ajuda olhar para dentro e soltar para fora o que somos. E faz bem escrever. Por isso entro nesta aventura. A medo, devagarinho, sem pressa.

A quem também faz anos hoje, um grande abraço.