domingo, 31 de agosto de 2008

«Parece óbvio que o cheio vale mais que o vazio... Mas será mesmo?

É gostoso comprar uma sandália nova. Mas uma sandália é para a gente pôr os pés dentro dela. Mas para se pôr os pés dentro dela é preciso que o “dentro dela” esteja vazio. Se o “dentro dela“ estiver cheio o pé não entra. É o vazio da sandália que a torna útil.

Vocês gostam de refrigerante. Querem pôr o refrigerante no copo. Mas para se pôr o refrigerante no copo é preciso que o copo esteja vazio. Um copo é um vazio cercado de vidro por todos os lados, menos o de cima. Aí você dá uma risadinha e diz: “Eu não preciso de copo. Uso um canudinho de plástico...“ Mas o canudinho só funciona se estiver vazio. É preciso que ele esteja vazio para que o refrigerante passe por
dentro dele quando você chupa.

Na escola o professor já lhes explicou como são os pulmões? Eles se parecem com uma esponja: são cheios de buraquinhos vazios. Os buraquinhos têm de estar vazios para que o ar entre neles. Coisa ruim é quando, resfriados, os pulmões ficam “cheios“. Pulmão cheio não deixa respirar.

Coisa gostosa é andar de bicicleta. Você pedala, as rodas rodam, e lá vai você sentindo o ventinho gostoso no rosto. Mas as rodas, para girarem, precisam ter um buraco no meio. É nesse buraco que entra o eixo. É o vazio no centro da roda que a torna útil.

Vocês gostam de bolo. Eu também. Para se fazer um bolo a gente procura a receita num livro de receitas. A primeira coisa que aparece numa receita são os “ingredientes“: farinha, ovos, açúcar, manteiga, leite e outras coisas. Mas eu nunca vi, em livro de receitas, explicado que se não se misturar uma pitada de vazio com os ingredientes, o bolo não fica bom. Fica “embatumado“, pesado, ruim. É o vazio que faz o bolo ficar fofinho e leve. Aí você me pergunta: “Mas como se faz para misturar o vazio na massa do bolo?“ É simples. É para isso que se batem as claras dos ovos. As claras, sem bater, são só o “cheio“. Mas, depois de batidas, estão cheias de vazio. Vocês sabem bater claras? É divertido. A gente pega um garfo e vai enrolando a clara com movimentos circulares rápidos. Para quê? Para pescar vazio. Depois de batidas as claras, olhem bem: elas se transformaram numa espuma, milhares de bolhas minúsculas. Dentro de cada bolha está um pouquinho de ar. O fermento faz o mesmo efeito. Misturado com a massa o fermento começa a produzir bolhas bem pequenas de um gás, semelhantes àquelas que existem dentro das garrafas de refrigerantes.

A casa também é um vazio cercado de paredes. Para isso servem as paredes: para pegar o vazio e permitir que ele seja usado. Os arquitectos e arquitectas são os artistas que sabem a arte de pegar vazios por meio de paredes.

E as janelas? Também são vazios. Buracos. Já imaginaram uma casa sem janelas? Seria horrível viver numa casa sem janelas. Só conheço uma casa sem janelas: os prédios do Congresso Nacional, em Brasília. Parece que a ausência de janelas não faz bem nem para os sentimentos e nem para os pensamentos...

É o vazio entre os meus olhos e o jardim que me permite ver o jardim. É o vazio chamado “silêncio“ que me permite ouvir a música. E o espelho? Para ser bom, para reflectir o seu rosto, é preciso que seja vazio."


Rubem Alves

http://www.rubemalves.com.br/ovazio.htm

sábado, 30 de agosto de 2008

«Do chão já não se cai; pelo menos é o que as pessoas pensam. Porque a mim cai-me o coração mesmo quando estou deitado.»
Domingos Amaral
Já ninguém morre de amor

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Os meus olhos são uns olhos,
e é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos,
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos, diz flores!
De tudo o mesmo se diz!
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Pelas ruas e estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandecente!!

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos!
Onde Sancho vê moinhos,
D.Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos!
Vê gigantes? São gigantes!

António Gedeão
Impressão Digital

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

terça-feira, 26 de agosto de 2008

In all the gardens...




Discover Van Morrison!

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

PARABÉNS



Berna

Desenho de Victor Hugo, Por de sol (1853-1855)



Desejo primeiro que você ame,
e que amando,também seja amado.
E que se não for,seja breve em esquecer.
E que esquecendo,não guarde mágoa.
Desejo, pois,que não seja assim,mas se for,
saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconsequentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito de suas próprias certezas.
E que entre eles,haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco,porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insonsso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outro sim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga «Isso é meu»
só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.

(texto atribuído a Victor Hugo)

"We can discover this meaning in life in three different ways:

(1) by doing a deed;

(2) by experiencing a value;

(3) and by suffering."

Man's Search for Meaning
p.176

domingo, 24 de agosto de 2008

Entre o terror e a noite caminhei
Não em redor das coisas mas subindo
Através do calor de suas veias
Não em redor das coisas mas morrendo
Transfigurada em tudo quanto amei.

Entre o luar e a sombra caminhei:
Era ali a minha alma, cada flor
cega, secreta e doce como estrelas
Quando a tocava nela me tornei.

E as árvores abriram os seus ramos
Os seus ramos enormes e convexos
E nos estranho brilhar de seus reflexos
Oscilavam sinais, quebrados ecos
Que no silêncio fantástico beijei
Sophia de MB
O Mar

sábado, 23 de agosto de 2008

As árvores crescem sós.
E a sós florescem.
Começam por ser nada.
Pouco a pouco se levantam do chão,
se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos,
e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas,
vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores,
e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós,
a sós consigo mesmas.
Sem verem,
sem ouvirem,
sem falarem.

Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.

Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se,
trespassam-se,fazem amor e ódio,
e vão à vida como se nada fosse.

As árvores, não.
Solitárias, as árvores,exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.
Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
A crescer e a florir sem consciência.
Virtude vegetal viver a sós
E entretanto dar flores.

António Gedeão
Poemas escolhidos (1996)

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Árvores negras que falais ao meu ouvido,
Folhas que não dormis, cheias de febre,
Que adeus é este adeus que me despede
E este pedido sem fim que o vento perde
E esta voz que implora, implora sempre
Sem que ninguém lhe tenha respondido?

Sophia de Mello Breyner
Árvores Negras
«Que cousa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? »
P. António Vieira

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

«O mon enfant, tu vois, je me soumets.
Fais comme moi: vis du monde éloignée;
Heureuse? non; Triomphante? Jamais.
Résignée!
Sois bonne et douce, et lève un front pieux.
Comme le jour dans les cieux met sa flamme,
Toi, mon enfant, dans l'azur de tes yeux
Mets ton âme!

Nul n'est heureux et nul n'est triomphant.
L'heure est pour tous une chose incomplète;
L'heure est une ombre, et notre vie, enfant,
En est faite.

Oui, de leur sort tous les hommes sont las.
Pour être heureux, à tous, -- destin morose! --
Tout a manqué.
Tout, c'est-à-dire, hélas!
Peu de chose.

Ce peu de chose est ce que, pour sa part,
Dans l'univers chacun cherche et désire:
Un mot, un nom, un peu d'or, un regard,
Un sourire!

La gaîté manque au grand roi sans amours;
La goutte d'eau manque au désert immense.
L'homme est un puits où le vide toujours

Recommence.

Vois ces penseurs que nous divinisons,
Vois ces héros dont les fronts nous dominent,
Noms dont toujours nos sombres horizons
S'illuminent!
Après avoir, comme fait un flambeau,
Ébloui tout de leurs rayons sans nombre,
Ils sont allés chercher dans le tombeau

Un peu d'ombre.

Le ciel, qui sait nos maux et nos douleurs,
Prend en pitié nos jours vains et sonores.
Chaque matin, il baigne de ses pleurs

Nos aurores.

Dieu nous éclaire, à chacun de nos pas,
Sur ce qu'il est et sur ce que nous sommes;
Une loi sort des choses d'ici-bas,

Et des hommes!

Cette loi sainte, il faut s'y conformer.
Et la voici, toute âme y peut atteindre:
Ne rien haïr, mon enfant; tout aimer,

Ou tout plaindre! »

Victor Hugo
"A ma fille", Paris, octobre 1842.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Don't let Life Pass You By

«Metade da minha alma é feita de maresia»

Sophia de Mello Breyner
«Mar»

terça-feira, 19 de agosto de 2008


segunda-feira, 18 de agosto de 2008

A espantosa descoberta das mãos

Ao contrário?

Pois sim, mas não deixa de ser o que é.

domingo, 17 de agosto de 2008

«O homem é uma prisão em que a alma permanece livre »

Victor Hugo

sábado, 16 de agosto de 2008

Graça


No olhar onde me revejo
alma do meu ser gerada
coração que me abraça
sem reflectir na medida.

Beijos doces onde me assento
mãos que me encontram procurada
em todos e em cada momento
seja de partida ou de chegada

No silêncio onde me acha recolhida
olhar que tanto me perturba
quando me apanha desprevenida
e me questiona: está cansada?

SILÊNCIO

(fotografia Maramar)

Tomara dizer bem claro,
Que no mundo vivo estou.
Mas eu sem deixar de ser,
Não posso dizer quem sou.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

A sombra revela-se...


...no meio da multidão.
Anémona fora de água.


quinta-feira, 14 de agosto de 2008

FÉRIAS!

(fotografia Maramar)
Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
António Gedeão
Inicio do poema "Assim como falham as palavras"



quarta-feira, 13 de agosto de 2008


Bendito seja eu por tudo o que não sei
gozo tudo isso como quem sabe que há o sol
Fernando Pessoa


«Ser aquilo que somos e virmos a ser aquilo que somos capazes de vir a ser,
eis a única finalidade da vida. »
Robert Louis Stevenson

sábado, 9 de agosto de 2008

À falta de um girassol..

Aqui fica um grande abraço de parabéns a uma alma Valente de que gosto muito!

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Peixe fora de água


Pensar
Vergílio Ferreira
Este é o tempo do insólito, do vigário, do capricho, da mentira, da falsificação, do cheque sem cobertura, da banha-da-cobra. Não temos um estalão para nada, a própria Terra não garante a estabilidade do metro, o sistema de pesos e medidas é duvidoso que funcione, tudo existe apenas em função de si e não de qualquer outra coisa que lhe confira validade. Hoje tudo é possível porque nada é possível. Hoje a verdade não se demora até ser mentira mas uma e outra se convertem mutuamente e são ambas válidas na sua mútua referência, sendo a mentira verdade e ao contrário. Hoje é o tempo dos aventureiros, do medíocre sagaz, da esperteza, que é a inteligência da astúcia. Hoje é o tempo do curandeiro, do endireita, do bruxo, do vidente, do profeta, do prestidigitador. Hoje é o tempo de se ser estúpido porque o inteligente não há razão para não ser mais estúpido do que ele. Hoje é tempo de todos os caminhos estarem desimpedidos porque não é possível um sistema alfandegário. Hoje é o tempo de todos os contrabandos porque não há razão para um sistema fiscal. Hoje é tempo da noite para todos os gatos terem a mesma identidade. Hoje é o tempo de tudo ser o tempo de. Hoje é o tempo de tudo, portanto de nada. Hoje é o tempo de se não ser.
Levanta em ti, se puderes, o que te resta de homem, para seres alguma coisa.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Solidão criativa

« Dar com um propósito não depaupera da mesma forma os nossos recursos; pertence àquela ordem natural da generosidade que parece renovar-se no acto em que se esgota. Quanto mais damos, mais temos para dar –

(...)

A sede não pode, evidentemente, ser saciada com uma mera sensação de indispensabilidade. Até a dádiva com um propósito precisa de uma fonte que a renove. (...) mas como?

(...)

Através da solidão, diz-nos a concha do caracol marinho. Todas as pessoas (...) deviam estar sozinhas em qualquer parte do ano, da semana, bem como de cada dia. Como isto parece tão revolucionário de tão impossível de atingir.

(...)

No que toca à busca pela solidão, vivemos num ambiente negativo tão invisível, entranhado e enervante como o excesso de humidade numa tarde de Agosto.O mundo actual não compreende, seja no homem, seja na mulher, a necessidade de estar só.

(...)

Que belo comentário à nossa civilização, quando se chega ao ponto em que a solidão é considerada suspeita (...) »

Dádivas do Mar
Anne Morrow Lindberg

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Mercedes de novo




Te han sitiado corazón y esperan tu renuncia,
los únicos vencidos corazón, son los que no luchan.

No te entregues corazón libre, no te entregues.
No te entregues corazón libre, no te entregues.

No los dejes corazón que maten la alegría,
remienda con un sueño corazón, tus alas malheridas.

No te entregues corazón libre, no por favor.
No te entregues corazón libre, no te entregues.

Y recuerda corazón, la infancia sin fronteras,
el tacto de la vida corazón, carne de primaveras.

No te entregues corazón libre, no te entregues.
No te entregues corazón libre, no te entregues.

Se equivocan corazón, con frágiles cadenas,
más viento que raíces corazón, destrózalas y vuela.

No te entregues corazón libre, no te entregues.
No te entregues corazón libre, no te entregues.

No los oigas corazón, que sus voces no te aturdan,
serás cómplice y esclavo corazón, si es que los escuchas.

No te entregues corazón libre, no te entregues.
No te entregues corazón libre, no te entregues.

Adelante corazón, sin miedo a la derrota,
durar, no es estar vivo corazón, vivir es otra cosa.

domingo, 3 de agosto de 2008


O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas.

Essas e o que faz falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço, Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo, Cansaço...


Álvaro de Campos