Histórias de infância, lugares que guardamos dentro de nós, aromas e essências que passam por nós no presente e nos transportam para espaços e momentos mágicos num flash back brando e morno, até aos dias inocentes da nossa infância, um passado que transportamos. Quem não os tem?
Bastou o cheiro de uma vela apagada para que o tempo a transportasse com saudade para muitos anos atrás, quando ainda criança, de tranças bem apertadas e vestido de smocks, passava o dia de Natal em casa da sua avó materna.
Celebrado sempre ao jantar de dia 25, era um momento mágico, rico em tradições.
Bastou o cheiro de uma vela apagada para que o tempo a transportasse com saudade para muitos anos atrás, quando ainda criança, de tranças bem apertadas e vestido de smocks, passava o dia de Natal em casa da sua avó materna.
Celebrado sempre ao jantar de dia 25, era um momento mágico, rico em tradições.
Chegavam cedo, ao princípio da tarde. A mãe logo se dirigia para a cozinha, ajudando nas várias tarefas que ainda esperavam pelos últimos aperfeiçoamentos.
Enquanto isso as crianças brincavam lá fora no jardim, se não estivesse a chover. Se por azar isso acontecia, havia no andar de cima um enorme quarto onde ainda havia os livros e brinquedos da infância da sua mãe e das tias.
Lembra-se agora da casa de bonecas, toda feita pelo seu avô que pacientemente, enclausurado horas a fio no seu work-shop nas traseiras da casa, tinha serrado e limado pequeníssimas peças de madeira que se transformavam em cópias minúsculas e perfeitas da mobília daquela casa. Nunca tinha conhecido o seu avô porque morreu cedo, doente e cansado dos ferimentos sofridos na guerra. Só uma velha fotografia sépia emoldurada em cima da cómoda da sala denunciava um homem magro, de cabelo todo branco e o rosto vincado pelos anos. O sorriso esbatido chegava aos olhos, que se percebiam serem muito claros. Fixados a olharem para nós, mantinham um brilho terno e brincalhão, que contrastava com a sua figura.
Lembra-se agora da casa de bonecas, toda feita pelo seu avô que pacientemente, enclausurado horas a fio no seu work-shop nas traseiras da casa, tinha serrado e limado pequeníssimas peças de madeira que se transformavam em cópias minúsculas e perfeitas da mobília daquela casa. Nunca tinha conhecido o seu avô porque morreu cedo, doente e cansado dos ferimentos sofridos na guerra. Só uma velha fotografia sépia emoldurada em cima da cómoda da sala denunciava um homem magro, de cabelo todo branco e o rosto vincado pelos anos. O sorriso esbatido chegava aos olhos, que se percebiam serem muito claros. Fixados a olharem para nós, mantinham um brilho terno e brincalhão, que contrastava com a sua figura.
A sua avó vivia numa casa nos arredores de Lisboa. Era uma casa com quartos e salas muito grandes para os seus olhos de criança, uma cozinha gigantesca que cheirava sempre magnificamente porque a sua avó era uma cozinheira formidável. Fazia uns manjares extraordinários, iguarias que só ela sabia fazer e cujas receitas guardava manuscritas, numa letra grande e bem desenhada, num caderno de capa preta, ao qual nem as filhas tinham acesso!
Era uma casa com um jardim cheio de esconderijos e árvores para subir e descer e onde ela podia correr à vontade na brincadeira com os seus primos direitos, todos rapazes mais novos e por vezes com o seu irmão, até ele ter idade para estar com os adultos. Foram tardes bem passadas, aquelas em que podia soltar-se e brincar, sem ninguém para lhe dizer para não fazer, para não sujar, para não asneirar.
Os “crescidos” ficavam dentro de casa. Eram dois mundos diferentes. O dos adultos e o das crianças. Nunca se misturaram. Uma vez dentro de casa, era preciso manter a postura, nada de gritos ou correrias. A sua avó era daquelas senhoras muito britânicas, very much so, e com pouca paciência para traquinices of small people. A regra indoors era o silêncio e a compostura.
Mais tarde havia drinks antes de jantar, conversas de adultos sem grande interesse para as crianças e depois passava-se à casa de jantar, enfeitada para a ocasião, com uma grande mesa ao centro, onde cabia toda a gente sentada.
Só se falava em inglês. Havia sempre um enorme peru, que começava a ser assado de manhã muito cedo, com um recheio como só a sua avó sabia fazer e que ela nunca mais comeu na vida. Acompanhado com batatas assadas e outras iguarias verdes, que só por ser Natal os pequenos não eram obrigados a comer.
Depois havia mince-pies, lemon curd, taças com fudge e alguns doces trazidos pelas tias.
Depois do jantar, chegava hora do primeiro momento mágico: O Plum Pudding.
Os “crescidos” ficavam dentro de casa. Eram dois mundos diferentes. O dos adultos e o das crianças. Nunca se misturaram. Uma vez dentro de casa, era preciso manter a postura, nada de gritos ou correrias. A sua avó era daquelas senhoras muito britânicas, very much so, e com pouca paciência para traquinices of small people. A regra indoors era o silêncio e a compostura.
Mais tarde havia drinks antes de jantar, conversas de adultos sem grande interesse para as crianças e depois passava-se à casa de jantar, enfeitada para a ocasião, com uma grande mesa ao centro, onde cabia toda a gente sentada.
Só se falava em inglês. Havia sempre um enorme peru, que começava a ser assado de manhã muito cedo, com um recheio como só a sua avó sabia fazer e que ela nunca mais comeu na vida. Acompanhado com batatas assadas e outras iguarias verdes, que só por ser Natal os pequenos não eram obrigados a comer.
Depois havia mince-pies, lemon curd, taças com fudge e alguns doces trazidos pelas tias.
Depois do jantar, chegava hora do primeiro momento mágico: O Plum Pudding.
Apagavam-se todas as luzes e aquele bolo flamejante era transportado desde a cozinha até à casa de jantar sempre acompanhado da sua própria canção que família toda cantava em coro desde que o bolo vinha pelo corredor fora até à casa de jantar e acabasse de arder. A letra tinha sido adequada pelo seu tio mais novo estritamente para aquela celebração. As luzes continuavam todas apagadas e todos continuavam a cantar enquanto se concentravam naquela labareda acesa do bolo que se ia mantendo a arder ao despejar nele o molho feito com rum e açúcar, atiçando o fogo em sucessivas colheradas. Ela nunca gostou muito do sabor do bolo. Ficava fascinhada com momento e aguardava sempre pelos brindes que lá estavam escondidos. Moedas cuidadosamente embrulhadas em papel de alumínio!
Depois do jantar chegava a hora da árvore e do Menino Jesus. Passavam para a sala onde encostado à parede frontal da lareira se erguia um pinheiro enorme.
Carregado de velas que a sua avó acendia quando chegava a altura de cantarem as Christmas Carols. Todas as luzes apagadas de novo e o ambiente era iluminado só pelas labaredas da lareira acesa, onde repousava ao lado o berço de madeira do Menino Jesus, deitado em palhas que lhe faziam de colchão. A avó acendia as velas uma a uma e os espaço ia-se iluminando serena e lentamente, até as velas estarem todas acesas. Presas nos ramos da árvore, as pequenas velas iam ardendo enquanto a família toda à sua volta cantava canções de Natal, até se apagarem de mansinho. Às vezes era preciso apagar alguma que ameaçava fazer arder o ramo onde estava presa. Uma celebração sentida e vivida em pleno, comungada e partilhada por toda a família . Nesse momento sim. Eram os adultos e as crianças.
Carregado de velas que a sua avó acendia quando chegava a altura de cantarem as Christmas Carols. Todas as luzes apagadas de novo e o ambiente era iluminado só pelas labaredas da lareira acesa, onde repousava ao lado o berço de madeira do Menino Jesus, deitado em palhas que lhe faziam de colchão. A avó acendia as velas uma a uma e os espaço ia-se iluminando serena e lentamente, até as velas estarem todas acesas. Presas nos ramos da árvore, as pequenas velas iam ardendo enquanto a família toda à sua volta cantava canções de Natal, até se apagarem de mansinho. Às vezes era preciso apagar alguma que ameaçava fazer arder o ramo onde estava presa. Uma celebração sentida e vivida em pleno, comungada e partilhada por toda a família . Nesse momento sim. Eram os adultos e as crianças.
Sempre que no presente sente esse cheiro de vela apagada é transportada para aquela sala, calma e serena, iluminada pelo lusco-fusco das chamas da lareira, pelas velas da árvore que ardiam e onde se podia embalar naquelas canções de Natal. Eram momentos mágicos e encantadores.
Só depois deste ritual era chegada a hora de distribuir os presentes, e aí a pequenada podia dar largas ao seu entusiasmo.
Só depois deste ritual era chegada a hora de distribuir os presentes, e aí a pequenada podia dar largas ao seu entusiasmo.
Desde que a sua avó morreu, nunca mais teve um Natal assim. Outros se lhe seguiram, também amenos e acolhedores, mas com outras configurações.
Nunca foi muito próxima da sua avó e nunca teve com ela uma relação afectuosa como tradicionalmente os netos vivem com os seus avós. As lembranças fotográficas que tem dela são de uma mulher alta, hirta, seca e disciplinada, que impunha respeito e autoridade que ela nunca se atreveu a contestar. Não se lembra da sua avó alguma vez lhe ter dirigido um sorriso terno ou uma palavra meiga.
Nunca foi muito próxima da sua avó e nunca teve com ela uma relação afectuosa como tradicionalmente os netos vivem com os seus avós. As lembranças fotográficas que tem dela são de uma mulher alta, hirta, seca e disciplinada, que impunha respeito e autoridade que ela nunca se atreveu a contestar. Não se lembra da sua avó alguma vez lhe ter dirigido um sorriso terno ou uma palavra meiga.
Mas os seus Natais eram mágicos e ela guarda-os consigo com muita paz e ternura.

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