Na minha casa o ambiente está aquecido e não dou pelo frio, mas vejo-o lá fora. É só espreitar pela janela. Rodeia-me por todo o lado. Mas não é só porque estamos no inverno.
Os dias são curtos e escurece muito cedo, mas anda tudo a correr. Oiço um buzinar constante. Gente cheia de pressa que se atropela para chegar ao destino mais depressa. Faz-se tarde e todos bufam estafados ao virar as esquinas. Encolhem-se de frio e escondem o nariz atrás do cachecol enquanto esperam em filas enormes para entrarem nos autocarros já atulhados de gente. Ou então desesperam no trânsito que não transita. E buzinam, tornam a buzinar, como se isso bastasse para fazer encurtar a distância e chegar mais depressa.
Não têm tempo. Falta-lhes tempo. Os ponteiros do relógio rodam a alta velocidade e eles ficam sem tempo. O tempo foge através do pulso, das mãos, do coração, do pensamento.
É a quadra natalícia.
É a quadra natalícia.
É o tempo de festa e alegria, mas anda tudo mal disposto e esgalhado. É o tempo de recolhimento, mas salta tudo para a rua aos encontrões. Era preciso que chovesse muito para lavar esta fúria toda que aí anda pelas ruas desalvorada, carregada de sacos cheios de nada. Estão todos a abarrotar de coisa nenhuma.
Estendem-se moedas em vez de mãos, trocam-se notas em vez de sorrisos. Mandam-se cartões electrónicos a desejar boas festas pela net altamente sofisticados, cheios de estrelas a cintilar no écran. Mandam-se mensagens por sms em linguagem abreviada - bntal e fliz 2008 (?????)- e eu é que estou doida e desluzida?

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