terça-feira, 5 de junho de 2007

Uma manhã no Sapal

(foto Maramar)
Páscoa passada no Sapal.
A calma serena e mansa daquele lugar era um frasco de tranquilizante para quem procurava uns dias de repouso, fora do vício ansioso do movimento e da loucura da grande cidade. Um lugar para onde regressava sempre com grande expectativa e de onde partia com imensas saudades.
O contraste que a casa pequena fazia com a imensidão de espaço verde e tranquilo do seu exterior fazia-a sempre sentir assim: Que precisava de sair para fora daquelas quatro paredes. Mesmo que o tempo não convidasse. Foi o que lhe aconteceu naquela manhã, que madrugara triste e cinzenta.
O céu azul acinzentado estava coberto de grandes nuvens brancas, de aspecto fofo e espesso, pareciam quase rama de algodão doce. O sol, quando aparecia envergonhado através das pequenas gretas que elas autorizavam, era morno e acolhedor. Mas rapidamente era obrigado a esconder-se.
Sentou-se numa das cadeiras que lá estavam fora desde a véspera, fechou os olhos e apurou os sentidos. O cantarolar dos pardais e das andorinhas compunham um espantoso concerto, bastava concentrar o ouvido. De vez em quando passava a sua amiga cegonha a rasar o voo baixinho mesmo ali ao pé dela, asas abertas e esticadas, solta, livre e ao sabor do vento....a felizarda! E o sol, sempre que podia, aquecia-lhe o rosto e a alma.
As garças saltitavam pelo pasto mesmo ao pé da romãzeira, nas traseiras da casa. Pareciam perdidas, atarantadas, de pescoço levantado. Estavam certamente à procura das vacas. Mas essas naquela manhã estavam do outro lado do rio. Bichos enormes e pachorrentos aquelas vacas! Naquele ano nem havia vitelos, eram umas 8 ou 10 enormes, colossais, umas todas castanhas, outras malhadas de branco, gordas e anafadas pelo farto pasto que cobria o Sapal de verde naquele ano.
Uma asa delta ao longe cruzava voos no céu, dando voltas e reviravoltas num grande alvoroço sem motivo aparente, porque o vento nem sequer soprava muito forte. Estranho...nunca tinha visto um voo tão agitado. Depois percebeu porquê. Numa das suas voltas, fez uma curva mais larga e de repente baixou a altitude lançando-se num voo alucinante, rasado e directo mesmo por cima do lago dos flamingos. Certamente assustados com aquelas asas imensas, largas e coloridas, levantaram voo todos ao mesmo tempo, formando no céu uma nuvem de salpicos brancos e agitados. Perante este cenário, só lhe faltava o soundtrack do “Out of Africa” para que tudo fosse perfeito.
A casa continuava adormecida e o filme de desenhos animados de um qualquer canal espanhol que o seu filho mais novo via na televisão devia ser interessante, porque ele continuava lá preso e entretido. Decidiu dar uma volta pelo Sapal e esticar as pernas. Estava ainda de roupão, mas isso não importava. A vantagem de não ter vizinhos, a não ser as vacas a pastar ao longe, os pombos e as andorinhas que voavam em bandos. Lá ao fundo, à beirinha do portão despontavam grandes buchos de jarros selvagens e prometeu a si mesma que levaria um ramo deles para Lisboa. Já meio do pequeno passeio deu-se conta da beleza dos arbustos selvagens por onde passava. Começou a apanhar espigas, depois mais à frente encontrou um arbusto que tinha umas ramagens salpicadas de pequeníssimas flores que iam do verde ao laranja. Depois outros diferentes mais ao lado. Mais à frente outra espécie, mais bonito ainda. Lindos! Foi apanhando deliciada, e em pouco tempo juntou um ramo tão grande que já não cabia no abraço da mão. Voltou para casa satisfeita com o seu ramo de flores silvestres e teve pena de não saber os nomes de cada uma delas. O ramo era tão bonito ....e já o imagina numa jarra em Lisboa. Um cheirinho daquela calma verde e morna do Sapal.
Quando entrou pela porta e mostrou animada o trofeu ao seu filho, ele desviou o olhar e encolheu os ombros desinteressado. «Ervas! Para que é que a mãe quer isso?»
Ainda pensou em explicar-lhe que todas as flores são bonitas, se tivermos cuidado a olhar para elas com atenção. Não precisam de ser viçosas, com toque de seda e de cores exóticas como as que ele estava habituado a ver nas floristas. Mas desistiu. Já estava embrenhado de novo na televisão. Entreteu-se a atar os pés das flores e proteger os pés com papel húmido para que se aguentassem até chegarem a Lisboa.
Estava na hora do café. Aqueceu a chávena no micro-ondas e foi bebê-la lá para fora, sentada na sua cadeira. Agora o azul do céu começava a desvendar-se cada vez mais e o dia abria-se, despedindo-se das nuvens. Teve vontade de seguir o seu impulso, vestir-se depressa e partir para a praia. Mas deixou-se ficar quando começou a ouvir grunhidos de gente que se espreguiçava, portas que se abriam e fechavam e barulhos na cozinha de cereais despejados nas taças. A casa finalmente acordava.

3 comentários:

Anónimo disse...

Que saudades!
Chegou a ir este fim-de-semana?
Tita

maramar disse...

Não. Mas não faltarão oportunidades....temos de combinar uma estadia com todos!
bjs

Anónimo disse...

Concordo!
Bjs
Tita